Frejat segue em trilho confortável no álbum ‘Ao redor do precipício’

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♪ Há sutis renovações na discografia solo de Roberto Frejat ao longo das 13 faixas do álbum Ao redor do precipício, lançado nesta quinta-feira, 4 de junho, pelo cantor, compositor e guitarrista carioca.

Contudo, nem a mistura da pulsação frenética do funk de 150 BPM com as guitarras que resultou em Batidão – tema instrumental assinado pelo artista carioca com Kassin, Humberto Barros, Leonardo Reis, Maurício Negão e Pupillo – consegue configurar real avanço na obra fonográfica solo do artista projetado nos anos 1980 como integrante da banda carioca Barão Vermelho.

Tampouco o suingue nordestino gerado pelo sopro das flautas de Carlos Malta na gravação de E você diz – inusitada parceria de Frejat com Jards Macalé e Luiz Melodia (1951 – 2017) – criam aura de inovação a ponto de fazer o álbum Ao redor do precipício se distanciar substancialmente dos três álbuns anteriores da discografia solo do artista.

Detectada sobretudo na arquitetura eletrônica de Planetas distantes, parceria de Frejat com Dulce Quental que versa sobre a dicotomia temperamental de casal, a presença de Kassin no time de produtores do disco – formando quarteto com Humberto Barros, Maurício Negão e o próprio Frejat – soa discreta.

No todo, Frejat permanece em zona confortável ao longo do disco Ao redor do precipício, quarto álbum solo autoral do artista, o primeiro de músicas inéditas desde Intimidade entre estranhos (2008), disco lançado já 12 anos. A opção pelo conforto em si jamais depõe contra o disco.

A questão reside na qualidade oscilante da safra autoral apresentada pelo artista em Ao redor do precipício, álbum anunciado em março com single em que Frejat apresentou a gravação inédita de Pergunta urgente, canção sobre impasses afetivos e existenciais de autoria do compositor gaúcho Luis Nenung, lançada pelo autor zen-budista no ano passado, no disco Incendeia tua aldeia (2019).

Gravada por Frejat com a adesão de Ritchie nos vocais, Pergunta urgente é a única das 13 músicas do álbum Ao redor do precipício sem a assinatura do dono do disco. As demais foram sendo amealhadas por Frejat quando, convencido por amigos que lhe cobravam um álbum após série de singles avulsos, o cantor decidiu entrar em estúdio para formatar álbum com músicas que vinha compondo nos últimos anos.

Algumas (poucas) músicas, como a balada Amar um pouco mais, parceria de Leoni com Frejat, já tinham sido gravadas – no caso, por Leoni, que há cinco anos apresentou a balada como faixa de abertura do álbum Notícias de mim (2015). Amar um pouco mais ganhou pegada roqueira na gravação de Frejat, como sinalizara em abril o segundo single do álbum Ao redor do precipício.

O terceiro singleCartas e versos, saiu em maio e apresentou mais uma parceria de Frejat com Leoni, esta inédita. Canção composta com refrão de apelo pop, Cartas e versos foi formatada em estúdio com sutil toque de latinidade na percussão de Leonardo Reis.

No álbum, Frejat ainda dá voz a duas outras músicas feita em parceria com Leoni. Com letra que inclui o verso-título Ao redor do precipício, a balada Por mais que eu saiba é canção apaixonada valorizada pelos vocais (Érica Anjos, Junior Tavares, Leticia Pedroza e Murilo Santos) e pelas cordas arranjadas pelo maestro Arthur Verocai.

Já Todo mundo sofre é baladão denso que sobressai na safra inédita do disco pela composição em si, um dos mais inspirados títulos do cancioneiro de Frejat com Leoni. Pupillo Oliveira toca bateria na faixa, amplificada com o solo de guitarra de Rafael Frejat, filho do ex-Barão.

Pupillo também figura como baterista na música-título Ao redor do precipício (Frejat), groove vocalizado sem letra, alocado na abertura do álbum como a primeira das três faixas-vinhetas de Ao redor do precipício.

Parceria de Frejat com Zeca Baleiro, Te amei ali é balada que ganhou levada de R&B com os metais orquestrados pelo músico e arranjador Serginho Trombone (1949 – 2020) em diálogo com o registro original feito por Baleiro e lançado em single editado em outubro de 2018 com o sopro soul dos metais arranjados por Adriano Magoo.

Falecido em 7 de abril, Serginho Trombone deixou outra marca do quarto álbum solo de Frejat. É do trombonista o arranjo de metais que transformou Tudo que eu consegui em pop dançante. Tudo que eu consegui é parceria de Frejat com dois poetas, Antonio Cicero e Mauro Santa Cecília. Mauro é parceiro habitual de Frejat. Já Cicero refaz o elo com o artista 34 anos após a edição da primeira e até então única parceria dos dois compositores, Bagatelas, lançada pelo Barão Vermelho no álbum Declare guerra (1986).

Música mais antiga da safra inédita, A sua dor é minha é composição de Frejat com George Israel e Mauro Santa Cecília, tendo sido feita em 2002 ou 2003. Alice Caymmi é a intérprete solista que dá voz à personagem dominatrix dessa balada-blues em si pouco sedutora, mas inflada no disco pelo tom meio épico do coro e das cordas orquestradas por Arthur Verocai – adornos valorizados pela primorosa mixagem do disco, feita pelo Renato Muñoz.

O acerto da mixagem também salta aos ouvidos com as texturas de dobro, slide e piano Wurlitzer que criam o clima andarilho de Partida de estrada…vazia, tema instrumental composto solitariamente por Frejat.

Bem mais do que vinheta na configuração do álbum, o tema Partida de estrada… vazia arremata bem esse disco em que o cantor segue em trilho confortável, com eventuais desvios que jamais põem o artista na beira do precipício em que Roberto Frejat parece temer se jogar para arriscar salto qualitativo em obra solo que já soa repetitiva.

Fonte: G1.Globo

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